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Perspectiva Publicado em 05/11/2026 8 min de leitura

A IA escreve. Quem garante? O novo eixo da Engenharia de Software

Um estudo de Harvard com 655 empresas mostra que a IA multiplica o código, mas não a entrega: o gargalo migrou para a revisão. O que isso muda para quem está se formando em Engenharia de Software na UnB — com apresentação e infográfico usados em sala.

Brasília, 5 de novembro de 2026

Como muita gente que atua no curso de Engenharia de Software, passei os últimos dois anos com uma inquietação que não é a pergunta da moda — “a IA vai substituir o programador?” — mas uma mais concreta: o que muda para quem está se formando agora e vai chegar ao mercado em 2027 ou 2028? Que competências vão valer mais, quais vão valer menos e o nosso currículo está olhando para o lado certo?

Duas coisas me ajudaram a transformar a inquietação em estudo. Um artigo de pesquisa de Harvard com uma base de dados enorme e um vídeo de um engenheiro de software que vive esse problema todo dia. Cruzei os dois com o Projeto Pedagógico do Curso (PPC) de Engenharia de Software da UnB, montei uma apresentação e um infográfico e levei pra conversar com meus alunos de Compiladores. Este texto é o que eu disse a eles, com as ressalvas que a sala de aula às vezes não comporta. Os dois materiais estão públicos no fim da página.

O estudo: muito mais código, pouco mais software

O artigo é Artificial Intelligence in the Firm: Bottlenecks in Software Production, de Fiona Chen e James Stratton (Harvard University). A versão que analisei é a de 28 de outubro de 2026 — um job market paper, portanto um manuscrito de trabalho, ainda sem revisão por pares. Isso importa, e volto a isso adiante.

A base é o que chama a atenção primeiro: cerca de 445 milhões de eventos de trabalho, de 720.542 profissionais em 655 empresas, entre janeiro de 2021 e agosto de 2026, cobrindo duas gerações de ferramentas — assistentes de programação (como o GitHub Copilot) e agentes de programação (como o Claude Code). O mérito científico não está em medir quanto código a IA produz. Está em perguntar quanto desse esforço vira resultado organizacional.

A resposta, em números, depois de 16 meses de adoção de assistentes e 12 meses de adoção de agentes:

IndicadorAssistentes de IAAgentes de IA
Linhas de código adicionadas+38,6%+44,0%
Commits realizados+25,5%+36,0%
Pull requests abertos+25,2%+35,7%
Issues do Jira resolvidas+2,0%+13,7%
Epics do Jira concluídos+1,7%+18,0%
Emprego em Engenharia de Software+3,1%−2,6%

Fonte: Chen & Stratton (2026), seções 4.3, 4.6 e 4.7. Os efeitos dos agentes são adicionais à adoção prévia de assistentes, não uma comparação experimental direta entre ferramentas.

Há uma distinção estatística que muda a leitura da tabela inteira: os aumentos em commits e pull requests são significativos; os aumentos em issues e epics concluídos não alcançam significância convencional. As estimativas de linhas de código também carregam incerteza considerável. Ou seja: o estudo demonstra com segurança que a atividade de programação cresceu. Que a entrega de software cresceu na mesma medida, não.

O gargalo não sumiu. Mudou de lugar.

Este é, para mim, o achado central. Depois da adoção de agentes, os autores mediram:

  • +56,1% no tempo total até a aprovação do código;
  • +59,9% no tempo de espera por um revisor;
  • +58,5% no tempo gasto em revisão ativa;
  • +38,6% no número de comentários por pull request.

Os dados apontam dois mecanismos. O primeiro é saturação: chega mais código para revisar do que os revisores conseguem absorver, e forma-se fila. O segundo é mais esforço por revisão: cada alteração exige mais comentários e mais tempo, o que os autores interpretam como indício de queda na qualidade do que é submetido.

Aqui vale a cautela que repeti várias vezes em sala: indício não é prova. O estudo não examina o código — usa indicadores indiretos de qualidade. E não encontra aumento estatisticamente significativo de defeitos reportados no Jira depois da entrega. Uma leitura razoável é que a revisão humana está absorvendo os problemas antes que cheguem à produção. O que, convenhamos, é exatamente o papel dela — e exatamente o que a torna o novo gargalo.

Por que “contrate mais revisores” não resolve

A primeira reação de qualquer gestor é redistribuir gente para a revisão. O artigo mostra por que isso não é trivial:

  • 82,8% das revisões são feitas por quem já conhecia a base de código;
  • 75,7% das revisões de código de engenheiros seniores são feitas por outros seniores;
  • 79,1% das empresas já usavam IA para revisar código em julho de 2026 — mas apenas 23,3% dos comentários de revisão vinham da IA.

Revisar exige conhecer a arquitetura, as regras de negócio e o histórico do sistema. Essa capacidade não se amplia por decreto, e a IA, por ora, não a substitui. O efeito é mais forte onde a base é mais complexa: nas empresas com mais repositórios, o tempo até a integração subiu 69,7%, contra 25,4% nas com menos.

E o emprego?

No período observado, não há redução estatisticamente significativa do número de engenheiros. Os +3,1% (assistentes) e −2,6% (agentes) da tabela são ruído. O que o artigo faz é calibrar um modelo econômico que sugere uma redistribuição do esforço: de aproximadamente 66% programação / 34% revisão antes dos agentes para 51% / 49% depois. São valores inferidos, não medições de tempo.

O modelo também projeta cenários para 2031 que vão de −10% a −76% no emprego, dependendo de hipóteses sobre reorganização das empresas e evolução da tecnologia. Deixei claro para os alunos: isso não é previsão, é simulação condicional. O cenário extremo supõe que a produtividade de programação fique 41 vezes maior que antes da IA e que a revisão acompanhe. Os próprios autores o tratam como limite superior.

O vídeo: menos tokens, mais engenharia

O segundo material é o vídeo O pesadelo do Code Review: IA vs. Produtividade, de Vinícius Pasquantonio (Staff Engineer, canal pasquadev). Ele parte do mesmo estudo e da própria experiência: desenvolvedores abrindo muito mais PRs, fila de revisão travada, um chefe que fez um protótipo em dez minutos e cobra o mesmo ritmo do time. E cunha um termo que os alunos reconheceram na hora — a ansiedade de tokens: a pressão por volume leva o engenheiro a gerenciar vários agentes em paralelo e o custo cognitivo da troca de contexto cobra a conta.

A tese dele é que a saída não está em mais ferramentas e sim em resgatar engenharia:

  1. Planejar antes de delegar — requisitos e arquitetura definidos antes de qualquer linha ou qualquer agente;
  2. Programação incremental — mudanças pequenas e coesas, PRs de no máximo ~300 linhas;
  3. Contexto e testes no PR — explicar o quê e o porquê, e cobrir os cenários antes da revisão humana;
  4. Métodos e paradigmas — DDD e programação funcional como instrumentos de legibilidade.

Ele próprio parou de medir e divulgar linhas, commits e PRs semanais. Passou a medir se desbloqueia o time.

Uma ressalva minha: “300 linhas” é uma heurística útil, não um limite validado cientificamente.

O que isso tem a ver com o nosso currículo

Foi aqui que o estudo virou aula. Se o eixo da profissão está se deslocando de “escrever mais código” para “decidir → verificar → integrar → entregar”, então o PPC de Engenharia de Software da UnB pode ser lido como um mapa de responsabilidades — e algumas disciplinas ganham uma centralidade que nem sempre o estudante enxerga no semestre em que as cursa.

Antes do código, as que decidem o que precisa existir: Requisitos de Software (entrevistar, esclarecer ambiguidades, definir critérios de aceitação) e Arquitetura e Desenho de Software (escolher estruturas, contratos, limites, e justificar decisões). Depois do código, as que demonstram que funciona: Testes de Software, Qualidade de Software 1 (medir resultado, risco e retrabalho — não linhas) e Gerência de Configuração e Evolução (revisar PRs e integrar com segurança). Em volta delas, as catalisadoras: Fundamentos de Programação, Paradigmas, Métodos de Desenvolvimento, Interação Humano-Computador e Engenharia de Produto.

Não são matérias isoladas. São um único sistema — especificar, projetar, implementar, validar, integrar — que os Projetos Integradores, o estágio e o TCC obrigam a montar inteiro.

Infográfico: IA na Engenharia de Software — o paradoxo, o gargalo da revisão, o que muda para o profissional, disciplinas que ganham centralidade na UnB, soft skills e o futuro desejável

E há um conjunto de competências que o artigo não mede, mas que a fila de revisão expõe: pensamento crítico para questionar o que a IA propôs, comunicação técnica para explicar decisões e escrever bons PRs, colaboração para revisar e desbloquear colegas, autonomia intelectual para compreender o que foi gerado, e responsabilidade pelo que se integra. A pergunta que fechei a aula foi direta: você aprovaria este PR gerado por IA? Atende ao requisito real? Preserva a arquitetura? Tem evidência independente dos erros possíveis? Qual o risco se estiver errado? Quem responde pela integração é o profissional — mesmo quando o agente escreve.

Minha leitura crítica do estudo

Três contribuições me parecem sólidas. A distinção entre produtividade local e organizacional: acelerar uma tarefa não acelera o processo. A identificação de mecanismos: o artigo não para em “a IA gera mais código”; explica por que isso não vira entrega — capacidade de revisão, especialização dos revisores, possível retrabalho. E a hipótese de reorganização do trabalho antes do emprego: a mudança aparece primeiro na composição do que se faz, não no número de pessoas.

As limitações também são reais. O desenho de diferenças em diferenças depende de tendências paralelas entre empresas que adotaram em momentos distintos — verificada empiricamente, mas não garantida. Os indicadores de produção final são proxies do Jira, não valor de negócio nem satisfação de usuário. A qualidade do código é inferida por comentários; o código em si não está na base. E a amostra é de empresas médias e grandes: generalizar para equipes pequenas, projetos acadêmicos ou startups pede cuidado.

Em síntese

O estudo não diz que a IA é pouco produtiva. Diz que os ganhos da IA são limitados pela capacidade da organização de absorvê-los — e que, hoje, essa capacidade se chama revisão, validação e integração. Para quem está se formando, a consequência é menos assustadora do que a manchete sugere, e mais exigente: o diferencial não será a quantidade de código que você consegue gerar, será a qualidade das decisões que você consegue sustentar.

A IA escreve. O engenheiro garante.

Materiais

Referências

  • Chen, F.; Stratton, J. Artificial Intelligence in the Firm: Bottlenecks in Software Production. Harvard University, manuscrito de trabalho (job market paper), versão de 28 de outubro de 2026.
  • Pasquantonio, V. O pesadelo do Code Review: IA vs. Produtividade (Harvard mediu 718 empresas). Canal pasquadev, 2026. youtube.com/watch?v=BYc8W145mI4
  • Projeto Pedagógico do Curso de Engenharia de Software — Universidade de Brasília, FCTE.

As opiniões expressas neste texto são dos autores e não representam posição institucional do CEDIS ou da Universidade de Brasília.